Caminhos do empreendedorismo na área tecnológica para os profissionais das engenharias

Segredo é olhar para os desafios buscando soluções práticas, aliando demandas e oferta de resultados

O empreendedorismo tem se consolidado como uma importante via de geração de renda e diversificação de postos de trabalho. E não é de hoje que o Brasil se destaca por esse potencial. Dotado de uma criatividade e inventividade natas, o brasileiro destaca-se mundialmente pelas suas soluções inovadoras, que muitas vezes estão entre as equipes de grandes movimentos internacionais.

Vide o brasileiro Eduardo Luiz Saverin, um empreendedor e investidor brasileiro que, em parceria com seu colega de quarto Mark Zuckerberg e outros três alunos de Harvard, fundou o Facebook. Além dele, inúmeros outros casos onde a oportunidade se encontra com a preparação, ou seja, estar no lugar certo e na hora certa, faz toda a diferença.

Desde 2002, a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) observa os índices do empreendedorismo no país. O estudo, realizado em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), identificou que a taxa de empreendedores estabelecidos (aqueles com negócios com mais de 3,5 anos) foi de 8,7%, de 2020, para 9,9%, em 2021.

Na área tecnológica, o movimento abre oportunidades para engenheiros, agrônomos, geocientistas e tecnólogos que buscam diferentes campos de atuação, como mercado de games, internet das coisas, análise de dados, inteligência artificial, máquinas autônomas e conectadas, agroindústria e infraestrutura industrial.

O espírito empreendedor é especialmente expressivo entre os jovens adultos, acompanhado de outras mudanças de comportamento profissional das novas gerações. A geração Z, por exemplo, formada pelos nascidos entre 1995 e 2010, já abrange mais de 30% da população, segundo projeções da Organização das Nações Unidas (ONU). Um público que privilegia muito mais a satisfação pessoal e a oportunidade de desenvolvimento ao retorno financeiro.

Tendo isso em vista, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) trabalha, por meio da Comissão Crea-SP Jovem, iniciativas de alcance aos futuros profissionais da área tecnológica propulsionando a renovação do setor com empreendedorismo e inovação.

O Eng. Mec. e Eng. Seg. Trab. Lucas Ribeiro Gonçalves é membro da Comissão e optou por empreender aos 19 anos. “Sabia que poderia ir além, pois existem inúmeras oportunidades em todos os segmentos. Empreender é enxergar necessidades e criar soluções para determinados problemas. Acordo todos os dias, olho para os meus clientes e tento imaginar quais são as dores deles para atender ao que precisam”, afirma. Antes de tomar a decisão, a recomendação dele é conhecer o mercado para saber se aquilo que se busca oferecer faz sentido.

 

Empreendedorismo social

“Como as coisas mudam muito rápido, não podemos deixar de estar antenados, explorando novas formas de executar nossas atividades. E um jeito de fazer isso com segurança é buscando a experiência de quem está estabelecido no mercado. Assim, você passa a entender os caminhos que deve percorrer e os desafios que vai encontrar”, sugere Gonçalves.

O interesse e a necessidade por investimento em áreas sociais e ambientais vem crescendo nos últimos anos. As empresas estão mais preocupadas em desenvolver projetos que garantam a proteção do meio ambiente e impeçam que danos sejam causados à natureza e à comunidade.  Esse movimento também tem estimulado o surgimento de novas organizações de proteção ao meio ambiente.

O debate sobre moradias para todos e iniciativas para promover a construção de casas populares também ganhou força nos últimos anos, principalmente durante a pandemia. Nesses contextos, o trabalho do engenheiro é essencial para pensar em soluções e encontrar as melhores formas de serem aplicadas.

No empreendedorismo social, toda mão de obra e conhecimento técnico são voltados para a solução dos problemas da sociedade. O conceito de cidades inteligentes é parte desta frente, aplicando os avanços tecnológicos nos campos de mobilidade e transportes, iluminação pública e segurança, habitação e saneamento, infraestrutura e sustentabilidade. A urgência de serviços públicos de melhor qualidade reforça o apelo.

Por meio da Comissão Crea-SP Jovem e do CreaLab, o Conselho, em parceria com as entidades de classe dos profissionais da área tecnológica presentes em diversos municípios de São Paulo, conhece de perto a realidade das diferentes regiões e atua na disseminação de conteúdo e fomento às práticas transformadoras.

 

Coworking, um novo conceito de trabalho

No caso de Monte Alto, projetos que envolvam o empreendedorismo estão nos planos da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Monte Alto-AEAA-MA. Criar um espaço de coworking, onde coexistam engenheiros experientes e novos profissionais é um dos sonhos do presidente Francisco Innoccencio Pereira.

“Temos todas as condições de oferecer uma oportunidade única para novos engenheiros se conectarem tanto às oportunidades de mercado quanto com os profissionais que já tem experiência de trabalho”, explica o presidente.

Segundo o conceito mais comumente usado no mercado, o coworking é um espaço físico que pode ser compartilhado por várias empresas, profissionais liberais e freelancers. Além de dividir as despesas gerais, como luz, aluguel, os profissionais e as empresas podem compartilhar várias áreas em comum, como refeitório, auditório, recepção e, o mais interessante, trocar experiências com outros profissionais e empresas e ampliar a sua rede de relacionamento.

No caso do espaço que está sendo planejado na AEAA-MA, essas despesas seriam rateadas de forma a que não causase impacto financeiro sobre os participantes do projeto.

“Temos que subsidiar uma parte dos custos, tornando nosso espaço com inúmeras vantagens para os novos profissionais”, afirma o presidente. “E a questão financeira é uma das principais formas de atração para a tomada de decisão”, finaliza.

 

Movimento Empresa Júnior

Além da questão do empreendedorismo social, os engenheiros tem ainda à sua frente inúmeras oportunidades de empreender dentro de sua área, colocando em prática tudo o que aprenderam e vivenciaram em suas formações acadêmicas.

O Movimento Empresa Junior Brasileira, por exemplo, busca com grande paixão “formar, por meio da vivência empresarial, empreendedores comprometidos e capazes de transformar o Brasil”.

Em seu escopo de trabalho, o movimento engloba:

  1. Empreendedores que veem os problemas das pessoas com a verdadeira intenção de solucioná-los;
  2. O governo como uma organização da qual temos que cuidar proativamente e
  3. Empresas no seu contexto geral.

Com isso em mente, o movimento tem centenas de empresas juniores, incluindo muitas de engenharia. Nelas, estudantes universitários são responsáveis pela sua sobrevivência, crescimento e inovação, aprendendo, dessa forma, o empreendedorismo.

Temos que levar em conta também que um engenheiro que quer ser empreendedor pode (e deve) se capacitar para isso. E o que não falta são alternativas. Como mencionado, existe o Movimento Empresa Junior e outras iniciativas que garantem ao graduando um ambiente de prática e conteúdo teórico. Quem já é formado e quer aprender mais sobre estratégia nos negócios, trabalho em equipe, liderança e outras habilidades úteis para o empreendedorismo, dispõe de incontáveis instituições de ensino e plataformas online para isso.

 

Sofware de Simulação computacional

Uma das áreas que mais tem oferecido oportunidades para engenheiros dentro da área tecnológica é a da simulação computacional.

Atualmente a engenharia conta com softwares especializados no desenvolvimento de novos produtos. Essa tecnologia é conhecida como CAE (Computer Aided Engineering ou Engenharia Assistida por Computador) e engloba toda uma série de sistemas que auxiliam o profissional desde a análise da física básica até sistemas mais complexos. Apesar de simplificar o processo de desenvolvimento de projetos, a correta operação deles requer um engenheiro que possua conhecimento nas ciências físicas e capacidade de abstração para criar um modelo computacional a partir de um produto real.

O conhecimento adquirido pelo profissional de engenharia durante os anos de aprendizado – e diferentes disciplinas cursadas na graduação – fornecem a ele o conhecimento de modelos matemáticos que visam explicar como os fenômenos acontecem. Esses modelos são representações simplificadas do processo real, porém, têm a função de compreender as variáveis relevantes, descartando aquelas que não alteram significativamente o comportamento do processo e fazem com que o modelo se torne excessivamente complexo.

Neste sentido, a escolha adequada de cada modelo matemático para estudar os projetos é de responsabilidade do engenheiro de simulação (que pode ter diferentes formações: mecânica, química, elétrica, entre outras). Esse profissional tem o conhecimento necessário para analisar quais das variáveis impactam significativamente no funcionamento do produto e descartar aquelas que possuem pouquíssimas influências.

Os softwares de simulação estão ficando cada vez mais complexos. Agregam modelos mais completos e diferentes fenômenos físicos passaram a incorporar modelos básicos, sendo conhecidos também como multifísicos, pois permitem a análise em diferentes domínios de simulação. Esses programas auxiliam o engenheiro de CAE a simular o comportamento dos produtos diante de diversas condições e avaliar a influência de uma variável sobre o item.

Apesar de cada vez mais evoluídos, os sistemas de simulação computacional atuam apenas na fase de resolução numérica do modelo ficando a cargo do engenheiro de CAE selecionar corretamente as variáveis relevantes para o projeto e avaliar a qualidade do resultado das simulações. Logo, o engenheiro é responsável por alimentar a simulação numérica com informações relevantes e precisas para que alcançar o melhor resultado.1

 

Painéis fotovoltaicos

Além dos sistemas computacionais, outra área de grande expansão que está oferecendo oportunidades para engenheiros empreendedores é a de energia solar. Desde que surgiu, a geração de energia por meio da captação de luz solar atrai muitos olhares e parece ser uma opção economicamente muito atrativa, já que, uma vez instalados os painéis fotovoltaicos, a tarifa paga à concessionária de energia tende a ser muito reduzida.

A boa notícia é que, com o avanço das tecnologias utilizadas para esta geração, hoje em dia e cada vez mais, a utilização desta inovação tem se mostrado um investimento com retorno relativamente rápido.2

De acordo com estudo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), o crescimento da microgeração distribuída é impulsionado por três fatores principais: a redução de mais de 75% no preço da energia solar fotovoltaica; o aumento de mais de 50% nas tarifas de energia elétrica nos últimos dois anos; e um aumento na consciência e responsabilidade socioambiental dos consumidores.

O Brasil prevê uma expansão de cerca de 41 gigawatts na capacidade instalada de geração de energia até 2026, com predomínio das usinas eólicas e solares, que deverão responder por quase 19 gigawatts no período, segundo o cenário de referência de um estudo do Governo Federal, o Plano Decenal de Expansão de Energia 2026, da estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Ela aponta que essa trajetória deverá demandar cerca de 174,5 bilhões de reais em investimentos no período.

De acordo com estudiosos, a energia fotovoltaica é um grande marco, ainda mais quando casada com a eólica, pois podem ser produzidas no mesmo local, conforme as condições climáticas, como uma utilização mista.

Esses profissionais afirmam que “é importante o planejamento total antes da instalação dos sistemas geradores de energia para ter a previsão de como essa geração vai se comportar, do primeiro ano até o final da vida útil, assim como sua substituição”.

Além disso, temos que levar em conta também que, hoje em dia, está disponível a alta tecnologia de proteção fotovoltaica com diversos tipos de vidro, como, por exemplo, os que armazenam o calor sem deixar que aumente a temperatura interior, e ainda deixando o ambiente totalmente iluminado.

As Concessionárias Distribuidoras de Energia possuem normas técnicas para o acesso de geração distribuída em seu sistema elétrico, padrões estabelecidos que visam à uniformização e à adoção de procedimentos, observando as exigências técnicas e de segurança recomendadas, em conformidade com as prescrições vigentes nos Procedimentos de Distribuição – PRODIST, nas Resoluções Normativas da Aneel e Normas Técnicas da ABNT.

 

Responsável Técnico

Para realizar essas instalações e sua manutenção, é necessária a contratação de empresa especializada, com um responsável técnico na área da Engenharia Elétrica, tendo em vista os riscos inerentes das atividades que envolvam energia elétrica.

Daí surgem as oportunidades para os profissionais da engenharia, ainda mais os que estão acompanhando o desenvolvimento dessa tecnologia. Os engenheiros eletricistas são unâmimes em afirmar que, para desenvolver o projeto e a instalação somente é habilitado o profissional de engenharia elétrica, os demais são apenas práticos, sem as atribuições exigidas por Lei. Além disso, se não for corretamente instalado, o sistema de armazenamento da energia pode se tornar poluente, com a emissão de gases no ambiente onde está, gerando perigo às pessoas.

 

Engenharia, tecnologia e empreendedorismo

No livro “A Quarta Revolução Industrial”, o autor, fundador do Forum Economico Mundial, Klaus Schwab, aponta que “estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes”.

Com a proposta de agrupar o que é físico, digital e biológico, a Indústria 4.0 traz ainda mais desafios para quem deseja se manter no mercado de trabalho.3

O crescimento exponencial da tecnologia, e consequentemente, o grande fluxo de dados e informações de tecnologias como a chamada ‘internet das coisas’, torna grande a demanda por algo que questione esses dados e informações; quanto maior a deficiência das empresas nessa área, maior será o prejuízo, pois essas informações pesam sobre tomadas de decisões, estratégias e até relações com os clientes.

Tendo as situações abordadas acima como falhas no processo, o termo “Big Data”, caracterizado por velocidade, volume e variedade de informações, vem influenciando todo o ramo empresarial e abrindo portas para os empreendedores, na trilha de oferecer precisão, segurança e qualidade dos dados.

Para que assim seja, o perfil de profissional, ou seja, o engenheiro e empreendedor do futuro certamente deverá procurar ter uma visão holística dos processos e estar sempre em sintonia com sistemas produtivos, softwares, nanotecnologia e biotecnologia.

Além disso, a imagem do profissional qualificado não se limitará à formação técnica. O engenheiro deverá ter a capacidade de entender também as transformações e impactos sociais que o avanço dessas tecnologias terá, assim como entender aspectos de mercado para enxergar oportunidades de ser também parte do desenvolvimento dessas tecnologias, ou seja, ser empreendedor.

E a questão que se coloca, ao final, é: como vamos preparar novos profissionais para o futuro da engenharia, que fundamentalmente está ligada ao empreendedorismo e, em especial, da tecnologia?

Cabe a nós, das entidades de classe e dos Conselhos representativos de nossos profissionais, investirmos cada vez em formações, cursos e capacitações que ofereçam suporte para a difícil travessia de onde estão hoje os engenheiros, tecnólogos e estudantes para a terra prometida do sucesso das empresas e dos profissionais envolvidos.

 

Referências Bibliográficas e Digitais

Blog ESSS, www.esss.co em https://www.esss.co/blog/qual-a-importancia-do-engenheiro-na-simulacao-computacional/, acessado em 12 de novembro de 2022.

Grupo Voitto, www.voitto.com.br em https://www.voitto.com.br/blog/artigo/o-que-acontece-quando-engenharia-e-empreendedorismo-se-encontram, acessado em 14 de novembro de 2022.

SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Editora Edipro.[s.d.]

BRITO, Elcio da Silva. SCOTON, Maria Lidia. DIAS, Eduardo Mario. PEREIRA, Sergio Luiz. Automação & Sociedade: Quarta Revolução Industrial, um olhar para o Brasil. Editora Brasport.

 

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