Engenharia e Medicina no cuidado com as mulheres

Neste Outubro Rosa, Crea-SP reforça compromisso com as profissionais

As ações para engajamento e promoção da equidade de gênero entre as profissões da área tecnológica são amplamente trabalhadas no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), que tem, entre suas iniciativas, o Programa Mulher. E, no mês da campanha Outubro Rosa, o foco é o papel das Engenharias no cuidado com a saúde feminina.

O câncer de mama está entre os principais tipos da doença em todo o mundo. No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), até 2021, o risco estimado de acometimento era superior a 60 casos a cada 100 mil brasileiras. Por isso, a Engenharia, atrelada à Medicina, é fundamental para o desenvolvimento de soluções que resultem em tratamentos menos invasivos e mais eficazes, além de recursos que contribuam com a prevenção primordial para um diagnóstico precoce.

“Nosso papel como comitê do Crea-SP é acompanhar a evolução social para garantir a entrega de soluções que a área tecnológica possa trazer como benefício para a sociedade. Por isso, estamos sempre atentos a temas pertinentes à mulher, como o câncer de mama, por exemplo, que, nos últimos anos, tem se beneficiado com tratamentos cada vez mais assertivos”, comenta a coordenadora do Comitê Gestor do Programa Mulher, Eng. Civ. Poliana Siqueira. “Em outubro do ano passado, abordamos a conscientização sobre a saúde feminina em uma live. No mesmo ano, lançarmos uma cartilha sobre o Programa Mulher com um panorama da participação das mulheres nas Engenharias, entre outros trabalhos e ações desenvolvidas”, finaliza.

Em Monte Alto, diversas ações vem sendo realizadas para a disseminação de informação a respeito do câncer de mama. A Santa Casa de Misericórdia de Monte Alto, por exemplo, realiza todos os anos eventos que chamam a atenção para o problema, assim como para as ações de prevenção—que podem salvar vidas.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer-Inca, as ocupações e atividades econômicas que tem maior prevalência de câncer de mama são as de técnica de radiologia, de plantonista noturna em hospitais e a de agricultora. No caso das mulheres que trabalham no campo, o estudo aponta que elas têm maior incidência em virtude de estarem expostas à produção e aplicação de agrotóxicos organoclorados.[1]

Outra classe de agricultoras que sofrem com o problema é a da que se expõem a pesticidas sem equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados. Essa categoria tende a desenvolver subtipos mais agressivos de câncer de mama, com piores prognósticos de tratamento.

Esse alerta se destina também às mulheres engenheiras, que podem vir a ter contado com esses produtos químicos. A falta de orientação e de observação das normas para o manuseio e aplicação desses materiais é patente no campo brasileiro—daí a incidência do câncer de mama nessas mulheres.

O dado animador, que contrapõe às estatísticas assustadores em relação ao assunto, é que esses casos são evitáveis simplesmente com a eliminação dos principais agentes cancerígenos nos processos de trabalho. Cerca de 6% dos casos de câncer podem ser evitados só com essa medida, de fundamental importância para a saúde feminina.

Segundo o presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Monte Alto, Engenheiro Químico e de Segurança do Trabalho, Francisco Inoccencio Pereira, a questão da incidência do câncer de mama entre as trabalhadoras do campo nos leva a uma matéria relativa à Segurança do Trabalho.

“Não é novidade que o estilo de vida e fatores ambientais e ocupacionais tem influência no aumento dos casos de câncer de mama. Os agrotóxicos, os solventes, os hidrocarbonetos aromáticos, alguns metais e outras substâncias químicas são exemplos de alguns dos fatores de exposição da mulher que a levam a situações de risco em relação a essa doença”, explica Francisco.

“Atualmente o Brasil ocupa o primeiro lugar como consumidor mundial de agrotóxicos. Utilizados principalmente na agricultura, mas também na pecuária, na conservação de madeira, de alimentos, na produção de flores e como inseticidas domésticos”, continua o engenheiro.

O engenheiro volta a tratar da questão ocupacional do campo para finalizar sua argumentação. “A população rural constitui o grupo populacional mais diretamente exposto, muitas vezes desde a infância. Alguns compostos testados em animais evidenciaram carcinogenicidade, como os organocloradados, alguns derivados do enxofre e o creosoto, um composto formado por hidrocarbonetos aromáticos, ácidos e alcatrão, muito utilizados na preservação da madeira. Outras substâncias são promotoras de tumor, como o diclorodifeniltricloroetano (DDT), clordane e lindane (IARC, 2010). Em humanos, compostos derivados do arsênio e inseticidas têm sido classificados pela IARC como cancerígenos”, arremata.

Os engenheiros, em suas diversas especialidades, têm uma responsabilidade para o futuro das tecnologias em relação ao problema. Testes de sangue para identificação de células cancerígenas em estágios iniciais, softwares que tornam a mamografia mais confortável, processamento digital de imagens e utilização da robótica em cirurgias, por exemplo, são alguns dos avanços que resultaram da integração da Medicina com a Engenharia.

Outro fator é a própria manutenção dos equipamentos, como mamógrafo, desfibrilador, monitor cardíaco, ultrassom e bisturi elétrico, o que garante mais segurança e contribui para o bem-estar de pacientes.

 

Engenheiros em busca de cura

Quando pensamos em quais os pontos de contato das engenharias com o diagnóstico e tratamento do câncer, as respostas são escassas. No entanto, engenheiros da computação da Universidade de Georgetown, do Georgetown Lombardi Comprehensive Cancer Center, que fica em Washington, capital americana, ajudaram um grupo de biólogos a encontrar uma molécula que determina se células cancerígenas resistentes a alguns tratamentos vão viver ou morrer.

O estudo foi publicado na revista científica Cancer Research e avaliou a célula do câncer de mama como se fosse um sistema de processos da informação. Segundo os pesquisadores, a abordagem da engenharia foi essencial para melhor compreender a biologia do câncer.

A história passou antes pela matemática. Segundo o artigo, cientistas desenvolveram um modelo matemático que usa toda a informação já conhecida sobre células do câncer de mama estrógeno-dependentes, que se desenvolvem devido ao aumento do estrogênio no corpo. Com base em sinais emitidos pelas células ao corpo e também em suas estruturas internas, os pesquisadores puderam entender como as células sobrevivem.

Essa modelagem matemática, desenvolvida por engenheiros, vai ajudar os médicos a compreender porque mais de 125 mil pacientes diagnosticadas com câncer de mama tem resistência a tratamentos hormonais e são, portanto, incuráveis.

Ao longo da pesquisa, a equipe de profissionais identificou uma molécula-chave que determina se uma célula cancerígena vai realizar a autofagia, ou seja, quando a célula mastiga e elimina proteínas tóxicas para se manter viva, ou vai realizar a a apoptose, que leva a célula a morrer. Essa molécula é ativada quando a célula está sob estresse, como durante os tratamentos hormonais.

Segundo o estudo, “A perda dessa molécula levou a uma resistência ao tratamento, enquanto o “desligamento” da mesma molécula restaurou a sensibilidade aos hormônios. O modelo matemático, afirmam os pesquisadores, foi extremamente importante para compreender os circuitos celulares e desvendar a participação dessa molécula.[2]

 

Engenheiro mecânico e câncer de mama

No Brasil também temos engenheiros que contribuíram para o avanço da tecnologia no combate ao câncer de mama, o câncer que mais mata mulheres no país.

O professor Gilmar Guimarães, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Uberlândia (Femec/UFU), faz parte da lista dos cientistas contemplados em 2021 com a bolsa Produtividade em Pesquisa (PQ) de sua universidade, em virtude dos seus estudos aplicados ao diagnóstico de câncer de mama.

Como em muitas áreas da ciência, o ponto de partida das grandes descobertas fica longe das metas finais atingidas pelos especialistras e estudiosos. No caso do professor Gilmar, ele trabalha com a investigação de problemas inversos em  transferência de calor. A pesquisa é voltada para a identificação de propriedades térmicas de diferentes materiais e a identificação de campos térmicos decorrentes de  processos de fabricação como usinagem de materiais ou soldagem.

No entanto, nos últimos 10 anos, tem se dedicado ao desenvolvimento de técnicas não invasivas baseadas em imagens térmicas para a detecção precoce do câncer de mama e da tireoide.

Segundo ele explica, as células de um tumor maligno, como um câncer de mama, possuem uma atividade metabólica diferente das células vizinhas, que são saudáveis. Esse comportamento tem como resultado uma diferença de temperatura entre células saudáveis e células não saudáveis. Essa diferença de temperatura, por sua vez, pode ser observada na superfície da mama através do uso de câmeras infravermelhas.

Assim, a medição (sem contato) desta temperatura, aliada a técnicas de processamentos de sinais e de solução de problemas inversos, pode indicar a presença de um possível tumor de forma precoce, ainda em seu início.

O professor explica: “A consolidação dessa técnica pode representar um grande avanço para a detecção precoce do câncer de mama, além de ampliar o acesso a exames onde a mamografia é limitada. São os casos, por exemplo, de pessoas de baixa mobilidade (como cadeirantes) ou ainda de mulheres jovens com idade inferior a 40 anos, cujo acesso à mamografia não é indicado”.[3]

 

Por mais mulheres neste mercado

Apesar de somarem cerca de 210 mil do total de profissionais registrados nas áreas abrangidas pelo Sistema Confea/Crea, as mulheres ainda correspondem a apenas 15% deste contingente. Diante disso, o Crea-SP, por meio do Programa Mulher, realiza uma série de ações para a promoção da equidade de gênero entre as profissões da área tecnológica com o apoio do comitê gestor.

Em Monte Alto, ainda é pequena a porcentagem de mulheres nas profissões de engenharia e geociências. Pelos poucos dados disponíveis na cidade, pode se concluir que ainda há muito a ser conquistado pelo público feminino nesta área no município.

Já o CREA-SP lançou uma cartilha em 2021, onde descreve a presença das mulheres no ecossistema das Engenharias e quais os desafios do Conselho para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de número 5 (Igualdade de Gênero). Neste ano, um encontro especial do Dia Internacional das Mulheres na Engenharia engajou profissionais de todo o estado de São Paulo na causa, além das visitas às uniões de entidades de classe que seguem disseminando práticas inclusivas.

O CREA-SP tem um grupo, que reúne informações importantes no endereço eletrônico creasp.org.br/programamulher. Segundo o conteúdo da página, ali é o espaço ideal para compartilhar e fortalecer seus projetos.

 

Segundo o site da Revista Brasil Engenharia,  em matéria de Regina Trombelli, “embora a participação feminina na profissão venha crescendo, é inferior à masculina, o salário é menor e ainda existe preconceito”.[4]

O país tem cerca de 960 mil engenheiros cadastrados no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Desses, cerca de 18% são mulheres. Embora bastante aquém quando se pensa em igualdade de gênero, esse percentual vem subindo. Dados do Confea mostram que, entre 2016 e 2018, o número de registro anual de mulheres cresceu 42%.

Já os números do último Censo da Educação Superior do Ministério da Educação, de 2018, mostram que em algumas áreas da engenharia as mulheres já são maioria em sala de aula, como nas engenharias de Alimentos, Bioprocessos e Tecnologia, Têxtil, Química e Recursos Hídricos e de Meio Ambiente. Já nas engenharias Civil, Mecânica e Elétrica, a participação masculina é maior, embora haja crescimento contínuo no número de mulheres.

 

Um exemplo dessa participação feminina na engenharia é que, após 124 anos de sua fundação, a Escola Politécnica USP teve a primeira mulher eleita diretora, no quadriênio 2018-2022. Liedi Légi Bariani Bernucci é engenheira civil, mestre, doutora, livre-docente e professora titular na área de Engenharia de Transportes (rodovias, ferrovias e pistas de aeroportos). Aliás, essa é uma área em que a presença feminina é minoria.

Na área de engenharia civil essa também é a realidade, o que pode comprometer a qualidade de vida desse segmento de profissionais. Segundo um trabalho de três mulheres da univerisdade de Maringá-UNICESUMAR, entre elas a engenheira civil Caroline urias Challouts, “No Brasil, o número de mulheres na área da engenharia civil aumentou consideravelmente nas últimas décadas. Contudo, não há igual relação de crescimento nos cargos de chefia feminina. Acredita-se que esse baixo número se dá por conta dos estereótipos de gênero ainda presentes na nossa sociedade, colocando as engenheiras em uma situação de vulnerabilidade”.

No entanto, a conclusão das pesquisadoras é que a qualidade de vida dos profissionais de engenharia não tem relação com a identidade de gênero. Isso porque foram entrevistadas centenas de engenheiras para se verificar o nível de qualidade de vida dessas profisisonais.

“A pesquisa empírica, ou seja, com base na observação, evidenciou que as entrevistadas apresentavam boa qualidade de vida, com o domínio psicológico apresentando menor escore. Evidencia-se a necessidade de mais estudos que avaliam a qualidade de vida de mulheres na engenharia civil como em outras áreas, para proporcionar mais estratégias para o autocuidado e promoção da saúde para essa população.”[5]

A cartilha do Programa Mulher, do CREA-SP, coloca questões que deve ser encaradas quando tratamos da disparidade entre homens e mulheres na engenharia. Um desses pontos é como as empresas estão possibilitando o acesso de mulheres a cargos de liderança e qual a prática salarial de mercado.

Há novas perguntas a serem respondidas: como incentivar que mais mulheres se apropriem de seus espaços, especialmente nas áreas da engenharia e geociências? De que forma é possível equiparar as demandas que vão além do trabalho entre homens e mulheres?

Pairando sobre essas reflexões, voltamos à questão da Saúde da Mulher em meio ao mercado de trabalho competitivo e, muitas vezes, injusto em termos de remuneração e progressão de carreira. Diante disso, uma nova era de conquistas deve ser vislumbrada, fomentando a entrada de cada vez mais mulheres no mercado de trabalho, especialmente naqueles em que a presença masculina é predominante.

A cartilha, ao final, aponta alguns caminhos. Quando questionadas, 58% das mulheres querem ver práticas mais flexíveis que apoiem ambientes familiares favoráveis ao trabalho feminino. Além disso, 54% dessas mesmas profissionais apoiam a utilização de currículos “anônimos”, ou seja, sem a indicação de nome ou sexo, durante os processos
de recrutamento. Isso, na visão dessas mulheres, evitaria muitos preconceitos. Nesse sentido, as entidades e conselhos de classe podem ajudar muito, uma vez que também colaboram para a entrada dessas profissionais no mercado de trabalho.[6]

[1] Inca-Instituto Nacional de Câncer. https://www.inca.gov.br/publicacoes/infograficos/cancer-de-mama-relacionado-ao-trabalho acessado em 29 de outubro de 2022.

[2] Bromberg, Silvio. Mastologia e Ginecologia. https://silviobromberg.com.br/engenharia-ajuda-desvendar-mecanica-de-celulas-cancer-de-mama/ acessado em 28 de outubro de 2022.

[3] Universidade Federal de Uberlândia. Em https://comunica.ufu.br/noticia/2021/03/engenheiro-desenvolve-tecnica-de-imagens-termicas-para-deteccao-precoce-de-cancer acessado dia 30 de outubro de 2022.

[4] Revista Brasil Engenharia. Em http://www.brasilengenharia.com/portal/construcao/18625-cresce-participacao-feminina-na-engenharia-mas-preconceito-ainda-existe acessado em 30 de outubro de 2022.

[5] Caroline Urias Challouts; Tânia Maria Gomes da Silva; Natália Quevedo dos Santos, Qualidade de vida de mulheres na engenharia civil, in Revista Brasileira Multidisciplinar, UNICESUMAR, Maringá, 2021.

[6] Cartilha Programa Mulher 2021-2023, CREA-SP, 2021.

 

Por Rogério Menani

Jornalista, com informações do CREA-SP

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