Qual o futuro da área tecnológica?

Ferramentas digitais e desafios socioambientais estão no foco da atuação de engenheiros, agrônomos e geocientistas

 

Realidade virtual, veículos voadores, automação de máquinas, internet das coisas e cidades inteligentes. Toda essa tecnologia tem ares futuristas, mas já é mais do que realidade e os grandes responsáveis pelo desenvolvimento de tais ferramentas são engenheiros, agrônomos e geocientistas. O que separa o hoje do amanhã é a transformação digital, mas o que esses integrantes da área tecnológica podem esperar então para o futuro de suas profissões?

A missão de antecipar tendências envolve conhecimento tecnocientífico, inovação e criatividade para atender às demandas da sociedade e do mercado de trabalho com a resolução dos problemas mais atuais, centralizados em três principais frentes: gestão ambiental, populacional e climática.

“Os movimentos das Engenharias, Agronomia e Geociências já estão sendo direcionados para as questões ambientais”, comenta a diretora de Educação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), Eng. Agr. Andrea Sanches. Para a diretora, o cenário estimula infinitas possibilidades para o futuro da área tecnológica. “Para o profissional, é sempre uma oportunidade de aprimoramento”, diz.

Em Monte Alto, cidade com forte vocação industrial, a gestão ambiental é um dos vetores de novos investimentos das empresas. Na cidade, são mais de 200 CNPJs de médio e grande porte que detêm cerca de 26,3% do PIB da cidade, segundo dados estimados do IBGE no ano de 2016.

E diante dessa demanda, a cidade não pára de crescer. Até julho de 2022, houve registro de 110 novas empresas este ano em Monte Alto, sendo que 11 atuam pela internet. No ano de 2021 inteiro, foram registradas 135 empresas. No último mês, 15 novas empresas se instalaram, sendo 1 com atuação pela internet.

Essa tendência que alia Meio Ambiente e Tecnologia tem trazidos frutos para a economia do município. Monte Alto é o 6º município mais populoso da pequena região de Ribeirão Preto, com 50,8 mil habitantes. O PIB da cidade é de cerca de R$ 1,9 bilhão de, sendo que 50,8% do valor adicionado advém dos serviços, na sequência aparecem as participações da indústria (26,3%), da agropecuária (11,4%) e da administração pública (11,4%).

Com esta estrutura, o PIB per capita de Monte Alto é de R$ 38,3 mil, valor inferior à média do estado (R$ 51,1 mil), da grande região de Ribeirão Preto (R$ 39,1 mil) e da pequena região de Ribeirão Preto (R$ 40,1 mil).

A sustentabilidade é um dos principais desafios e perpassa diferentes setores, desde a cadeia de suprimentos – com implantação de estratégias e tecnologias de maior eficiência no agronegócio (manejo de solo, conexão de máquinas, compartilhamento de dados, softwares de monitoramento de pragas, melhoramento genético nas plantações e na pecuária) e na indústria alimentícia (máquinas em funcionamento programado, engenharias para segurança do trabalho e redução da emissão de gases do efeito estufa) – até os serviços de infraestrutura, saneamento, mobilidade, habitação, energias renováveis, entre outros.

Diante disso, a Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Monte Alto-AEAA-MA tem focado muito das suas ações de cursos e capacitação para essa área da sustentabilidade e da tecnologia.

No ano de 2022, já foram muitos eventos voltados para essas temáticas. Já em março, a AEAA-MA realizou a palestra técnica, com o tema “Elaboração de Planos Municipais de Saneamento Básico – PMSB, ministrada pelo Eng. Químico e de Seg.do Trabalho, Mestre e Doutor em Tecnologia Ambiental, Gustavo de Almeida Frata.

O Novo Marco Legal do Saneamento Básico – Lei 14.026/20 – tem como um de seus princípios fundamentais a universalização do acesso aos serviços de saneamento, quais sejam: abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, drenagem e manejo de águas pluviais, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.

Dentro desse escopo, o Eng. Gustavo salientou que, hoje, os Planos Municipais de Saneamento Básico (PMSB) são instrumentos indispensáveis para a elaboração da política pública de saneamento e o monitoramento dos resultados alcançados. “São também obrigatórios para a contratação ou concessão de serviços, bem como para o recebimento de recursos financeiros da União”, lembra ele.

“A participação da sociedade é fundamental no processo de elaboração do PMSB para apresentação dos cenários e principalmente, para a discussão sobre os prazos e tarifas dos serviços. Aliás, a lei prevê a mobilização social na elaboração, aprovação, execução, avaliação e revisão do Plano, que deve ser feita a cada quatro anos”, salienta Frata.

Segundo a revista DAE, citada pelo engenheiro químico, o Plano Municipal de Saneamento Básico deve conter, no mínimo:

 

  • Diagnóstico da situação do saneamento e seus impactos nas condições de vida. Leva-se em consideração indicadores sanitários, epidemiológicos, ambientais e socioeconômicos;
  • Objetivos e metas de curto, médio e longo prazo para a propagação do sistema. Deve ser compatível com outros planos do município e do estado;
  • Ações emergenciais e de contingência;
  • Mecanismos e procedimentos de avaliação da eficiência e eficácia das ações planejadas.]

 

Se bem executado, o planejamento é capaz de promover a segurança hídrica, prevenir doenças, reduzir as desigualdades sociais, preservar o meio ambiente, reduzir acidentes ambientais e desenvolver economicamente o município.

Em outubro de 2015, em pesquisa do Ministério das Cidades, chegou-se à conclusão que apenas 31% dos municípios brasileiros possuíam o PMSB. De acordo com o trabalho de coleta de dados, a maioria dos municípios planejam apenas a parte de água e esgoto, deixando de lado as duas outras vertentes previstas na legislação.

Estudo realizado nos 100 maiores municípios brasileiros pelo Instituto Trata Brasil, em 2013, apontou que 34% não haviam entregado o plano.  Mesmo possuindo recursos financeiros, corpo técnico, estruturas políticas e conhecimento da lei. A pesquisa concluiu que, visto todos os requisitos da legislação, pode-se considerar que apenas 12 municípios cumpriam o plano totalmente.

Em janeiro de 2017, o Ministério das Cidades divulgou um Panorama dos Planos Municipais de Saneamento Básico no Brasil. Ele leva em consideração todos os estudos realizados por órgãos, governamentais e não-governamentais, ao longo dos anos subsequentes à promulgação da lei. A figura abaixo reúne os dados levantados por essas pesquisas a nível do país.

 

Panorama dos Planos Municipais de Saneamento Básico no Brasil. Fonte: Ministério das Cidades

 

O desafio é seguir avançando

 

Em abril, a Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos voltou aos temas prioritários dentro da agenda do CREA para levar aos profissionais da região conhecimento sobre novas tecnologias e processos.

Nesse mês foi realizado com o apoio do CREA-SP e da Prefeitura Municipal o “1º Fórum de Soluções e Inovações Inteligentes”. Dentre os palestrantes esteve presente a atriz Úrsula Corona, embaixadora da ONU Brasil, que falou sobre “soluções para evitar o desperdício de alimentos”. “Projetos de automação de água” e “Aplicativo de Ouvidoria Pública” também tiveram lugar, entre os temas propostos.

A Eficiência Energética teve lugar no evento, como uma das formas prioritárias de desenvolvimento econômico do país. Mas o que seria eficiência energética? Consiste em usar de modo eficiente a energia para se obter um determinado resultado. Por definição, a eficiência energética consiste da relação entre a quantidade de energia empregada em uma atividade e aquela disponibilizada para sua realização.

No evento realizado no Centro de Treinamento do CREA-SP, diversos exemplos foram dados de como podemos economizar energia e melhorar a eficiência energética em nosso dia-a-dia. Uma lâmpada tipo LED de 7W tem o mesmo nível de iluminamento que uma lâmpada incandescente de 60 W. OU seja, economia de 53 Watts por hora ou quase 90% de economia.

 

Além disto, a vida útil do LED é 50 vezes maior e o calor que é transferido para o ambiente é menor portanto locais climatizados gastarão menos energia para resfriar o ambiente.

Outro exemplo citado foram os motores. Em média, um motor de alto rendimento economiza de 20 a 30% de energia em relação a um motor tradicional. Além disto, uma boa parte dos motores instalados possui potência maior que a necessária, portanto adequando a potencia do motor, haverá mais economia de energia elétrica.

A modernização das caldeiras, utilizadas ainda hoje em muitas indústrias, hospitais e hotéis, também são uma forma de eficiência energética. A Cogeração, o reaproveitamento de gases de escape, o uso de placas solares são algumas das opções que uma ESCO (Empresa de Serviço de Energia) pode oferecer visando a redução de consumo de energia.

Ainda durante o evento no Centro de Treinamento do CREA-SP, uma palestra chamou a atenção dos presentes: a que falava de projetos de automação de água, para a economia e sustentabilidade ambiental.

Dentro desse tema, o palestrante abordou a automatização de reservatórios e caixas d’água, medida de fundamental importância devido à crise hídrica que várias cidades enfrentam no Brasil.  “A possibilidade de coleta de água de chuva para utilizações nas atividades domesticas de limpeza tem se mostrado um arma poderosa na economia de água e resultado também em economia de dinheiro nas contas do fim do mês”, disse.

 

 

Novas visões, para profisisonais atualizados

 

Com a população em crescimento e o mercado em aceleração dinâmica, o profissional precisa ter um comportamento resiliente e multidisciplinar. Isso porque os produtos que nascem das soluções desenvolvidas pela área tecnológica têm origem na interação de equipes, na análise de dados e no estudo de variáveis.

“Trabalhar essa transformação não é difícil. Um profissional que consiga não só fazer o seu trabalho dentro de um grupo, mas que permita que todos os outros consigam alcançar o mesmo objetivo juntos é o futuro que vejo para a área tecnológica”, afirma o coordenador do Colégio de Instituições de Ensino Superior (CIES) do Crea-SP, Eng. Agr. Glauco Eduardo Pereira Cortez.

 

Para isso, segundo o especialista, precisar haver uma mudança na forma de ensinar, com o objetivo de envolver os alunos nos desafios e instigar a criação de grupos que busquem soluções para tais questões. “Aí sim vamos conseguir realmente preparar o profissional para o futuro”, sugere.

O espírito de empreendedorismo e as startups também devem ser incentivados. “Inovar não quer dizer sempre fazer algo completamente novo. Pode ser apenas fazer algo de um jeito novo, de um jeito diferente”, complementa Andrea.

Segundo o blog ESSS, O maior arquivo de conteúdo sobre simulação computacional da América Latina1, “a engenharia foi uma das áreas que mais foi impactada durante a pandemia, positivamente e negativamente. O setor sofreu perdas por causa da paralisação, que impossibilitou o andamento dos projetos inicialmente. Esse cenário fez com que o empreendedorismo na engenharia fosse necessário para a continuidade dos negócios”.

Ainda de acordo com o texto, o engenheiro deve procurar inúmeras formas de empreender, dentro de uma estrutura estratégica e sistêmica de pensar, tomar decisões e colocar ações em prática.

Um dos vetores desse novo movimento dos profissionais da engenharia na área do empreendedorismo seria a criação de serviços especializados. Segundo o texto da ESSS, “na engenharia, os profissionais deixam a universidade com pouco preparo para atuar no mercado. O conteúdo aprendido ajuda no desenvolvimento de profissionais generalistas em suas áreas. Por esse motivo, há menos profissionais atuando de forma especializada”.

Além de ajudar o engenheiro a construir um perfil de especialista, há muita oportunidade para atuar em setores específicos, desenvolvendo soluções e estratégias focadas nas dores e necessidades daquela determinada área. A especialização é uma opção capaz de colocar os profissionais em patamares de destaque.

A área da consultoria é também um outro setor que pode ser aproveitado pelos profissionais para o desenvolvimento de suas carreiras. A consultoria é interessante para as empresas, pois permite que um profissional com conhecimento técnico especializado supra uma necessidade do negócio. Há casos em que a empresa tem mão de obra e recursos para executar um serviço, mas não tem o conhecimento de um engenheiro ou até mesmo a responsabilidade necessária para avaliar um cenário.

Além disso, o engenheiro é o único profissional habilitado a aprovar e fiscalizar determinados projetos. Dessa forma, em algum momento a sua presença será necessária. O atendimento consultivo permite que o profissional atue em diferentes áreas de negócios e, com isso, construa uma rede de contatos forte para atender mais projetos.

Com ponto fundamental também nessa atuação empreendera, pode-se considerar ainda a revenda de software de simulação computacional. A simulação computacional é uma tecnologia utilizada no mundo todo, sendo fundamental para a construção de múltiplos cenários, com agilidade e menor custo. Ao utilizar essa tecnologia, a empresa consegue identificar pontos de atenção em seus projetos com mais segurança e assertividade. Dessa forma, é possível minimizar os riscos e impedir danos ao meio ambiente ou à sociedade.

Além dos profissionais já atuantes no mercado, há de se pensar também naqueles que estão ainda em formação nas universidades. As grades curriculares destas graduações oferecem, além das disciplinas técnicas inerentes a cada uma das especialidades, deveriam abordar também uma gama de disciplinas em diversas outras áreas de conhecimento tais como: psicologia aplicada às organizações, sociologia, direito, noções de teoria geral da administração e economia2.

Levando em consideração que um curso de engenharia seja eminentemente técnico, pode-se perceber que a necessidade do desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias deve ser uma preocupação constante para o corpo docente das instituições de formação de engenheiros.

E é justamente neste aspecto, técnicas e tecnologias novas, que o empreendedorismo pode ser de extrema utilidade para a engenharia (sem nos atermos às devidas preocupações que um empreendedor, seja um engenheiro ou não, deva ter ao iniciar um novo negócio, como planejamento, forma de lidar com incertezas e avaliação de oportunidades)3.

 

Novos Desafios

 

No cerne da questão da engenharia para o futuro está realmente a formação mais ampliada dos profissionais, dentro da cadeia de inovação em tecnologia e com a diretriz socioambiental como baliza mestra nesta caminhada.

Dentro desse cenário, primeiro devemos promover a revisão os currículos programáticos dos cursos de engenharia e ciências correlatas, atualizando-os para os novos tempos. Por outro lado, há de se fomentar ainda mais as estruturas das entidades de classe que, espalhadas pelos municípios brasileiros, pode ser de grande valia na disseminação de conhecimento e de prática para os profissionais.

Cursos, capacitações e outros eventos que congregam todas as forças atuantes das engenharias locais devem ser constantes, sempre com vistas ao desenvolvimento das habilidades de nossos profissionais. Com o tempo, a carga de conhecimento transmitido vai se fazendo notar, em grande parte das novas empresas criadas e também na evolução dos serviços prestados para grandes conglomerados e órgãos públicos em geral.

Iniciativas como os eventos realizados em Monte Alto no ano de 2022 também são exemplos de como incentivar essa troca de informações, de maneira próxima e eficiente.  Esse é o papel que vem sendo desenvolvido tanto pelo Crea-SP quanto pelas  entidades de classe, que estimulam a capacitação contínua e humanizada, além de promoverem interação entre os profissionais inseridos no Sistema Confea/Crea, em ações como cursos, palestras, workshops e outros eventos.

No âmbito do Conselho, o CreaLab (creasp.org.br/crealab) e o Crea-SP Capacita (creasp.org.br/capacita) são dois exemplos de iniciativas com esse intuito.

 

Referências Bibliográficas e de consulta

 

  • Blog ESSS, publicado em 22 de março de 2022 e consultado em 29 de agosto de 2022, https://www.esss.co/blog/empreendedorismo-na-engenharia/
  • Empreendedorismo e engenharia, XIII SIMPEP – Bauru – SP, Brasil, 06 a 08 de novembro de 2006, , Elizabeth Freitas Rodrigues (CEFET-RJ) Roberto Pascarella Justa (FGV-RJ) Marcelo de Sousa Nogueira (CEFET-RJ) Miriam Carmem Pacheco da Nóbrega (CEFET-RJ)

 

 

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